15 abril 2009

CONSUMO - Para onde vai o dinheiro do consumidor.

Em 2009, a economia brasileira será sustentada por seu mercado interno. Um estudo inédito mostra como quase 2 trilhões de reais serão gastos neste ano



Dono da quinta maior população e do oitavo mercado consumidor do mundo, o Brasil se transformou nos últimos anos em uma das principais fronteiras de negócios das empresas no panorama global. Chineses e indianos à parte, ficou difícil ignorar dezenas de milhões de brasileiros alçados à classe média recentemente. Crescimento acelerado nas vendas internas e um estoque ainda gigantesco de pessoas a incorporar ao mercado de consumo fizeram a estrela brasileira brilhar mais fortemente no mundo dito emergente - e ajudaram a definir um novo papel do país no século 21.

Então, veio a crise econômica, e todos os prognósticos sobre o futuro dos emergentes foram para a gaveta. Passados seis meses, já é possível divisar alguns fatos em meio à névoa que ainda obscurece o cenário global. Fato um: o Brasil não escapou da confusão - nem seria razoável esperar o contrário. Fato dois: paradoxalmente, a crise pode até acentuar a ascensão brasileira. Lá fora, o cenário continua sendo de quase depressão. Estima-se que o gasto total das famílias americanas tenha caído 5% no último ano - e as previsões são ainda piores à frente. Resultados igualmente sombrios são recorrentes em quase todas as áreas ricas do mundo. Por aqui, o mercado consumidor não apenas permanece robusto - a alta nas compras foi de quase 6% no último ano - como vem se transformando no principal alicerce da economia brasileira neste duro ano de 2009. Esse mesmo mercado pode ser também o fator primordial para colocar o Brasil no pelotão de frente quando os bons ventos voltarem a soprar.







É exatamente isso o que mostram dois estudos exclusivos obtidos por EXAME. Lidos conjuntamente, servem como um mapa do consumo para este ano, evidenciando quem deve ganhar espaço e quem deve ficar para trás na divisão do bolo. Uma das principais conclusões é que o mercado interno será determinante para o estado geral da economia brasileira. Tradicionalmente, os economistas apontam como principais "motores" econômicos as vendas para o mercado interno, as exportações e os investimentos. Até o ano passado, o crescimento do mercado interno caminhou junto com a aceleração dos investimentos das empresas e das exportações do país - e isso tornou possível o avanço do PIB acima de 5% em 2007 e em 2008. Desde a eclosão da crise, porém, o sinal mudou. Muitos investimentos, atingidos pela contração internacional do crédito e influenciados pela piora do cenário geral da economia, já foram postergados. As exportações, por sua vez, estão em franca desaceleração. Mas o consumo das famílias não necessariamente obedece à mesma lógica e pode ser a grande fonte de notícias positivas no Brasil.

Responsável por 60% de toda a riqueza produzida no país, o consumo atingiu 1,8 trilhão de reais em 2008. Segundo a consultoria MCM, autora de um dos estudos repassados a EXAME, mesmo em um cenário pessimista (de retração de 0,5% da economia), os gastos das famílias devem apresentar um pequeno crescimento em relação a 2008, de 2,4 bilhões de reais. Significa dizer que, no pior quadro imaginado para 2009, o mercado consumidor brasileiro irá repetir, com alguma folga, o desempenho do ano passado, um dos melhores da história. Numa projeção mais otimista, os números deste ano podem ser mais vistosos - e até mesmo bem mais vistosos, dependendo do setor em questão. A heterogeneidade setorial, aliás, é uma das marcas registradas de 2009. Entre os setores de perspectiva mais positiva está o de supermercados e hipermercados, que deve crescer 5,3%, praticamente repetindo a taxa de 2008. O varejo de produtos farmacêuticos também apresenta taxas de crescimento altas - neste ano, deve crescer mais de 12%. Esse desempenho coincide com a popularização dos remédios genéricos e o aumento da capacidade de consumo das classes mais baixas, que não tinham acesso a medicamentos. Junto a isso, as grandes redes de drogarias modernizaram o segmento, introduzindo a venda de novos produtos, como cosméticos. Já para a venda de carros, motos e combustíveis - apesar do efeito positivo até agora do corte temporário de impostos, ampliado até o final de junho pelo governo -, a previsão é de retração.

O que explica resultados tão díspares? Em larga medida, as reações do consumidor brasileiro ante o cenário mais difícil. Desde janeiro, o desemprego encontra-se em alta, e ele - ou sua mera perspectiva - talvez seja o fator que mais influencia a forma como as pessoas gastam seu dinheiro. "O nível de emprego deve ser a grande preocupação neste ano, seja para o cidadão, para as empresas ou para o governo", diz o economista e consultor Nelson Barrizzelli, professor da Universidade de São Paulo. De acordo com o estudo da MCM, a taxa de desemprego no país deve subir para 10,5%, ante os 7,9% registrados no ano passado, quando atingiu o nível mais baixo desde 2002. Ocorre que o enfraquecimento da atividade econômica não afeta apenas quem perde o emprego. Boa parte das pessoas que permanecem empregadas também reage à situação, consumindo menos ou alterando hábitos e prioridades de compra. "É natural que o consumidor se torne mais cauteloso em tempos de crise", afirma o consultor Olavo Cunha, sócio do escritório brasileiro do Boston Consulting Group. "O medo faz com que ele adie gastos, poupe mais, desista de fazer dívidas."

Uma das primeiras mudanças de hábito do consumidor é o corte de produtos supérfluos. Portanto, tende a sofrer menos quem produz bens e serviços considerados essenciais, como alimentos, remédios, artigos de higiene pessoal e de limpeza doméstica. Não estranha que o setor de supermercados e hipermercados seja um dos líderes de crescimento em 2009, segundo as projeções da MCM. Mas é preciso cuidado com conclusões apressadas. Um produto considerado supérfluo por alguém pode ser essencial para outro. Um consumidor de classe média pode até adiar uma viagem em razão da crise, mas só em último caso altera sua cesta de alimentos e produtos de higiene pessoal. Já para pessoas de classe de renda mais baixa, que tiveram acesso recentemente a certos produtos, bens como iogurte ou condicionador de cabelo podem ser considerados supérfluos e cortados da lista. "Trata-se do famoso efeito ‘escadinha’, em que cada pessoa dá um passo abaixo na lista de prioridades com o objetivo de diminuir despesas", afirma Markus Stricker, vice-presidente da área de consumo e varejo da consultoria A.T. Kearney.

Mudanças de comportamento do consumidor como essas acabam gerando uma espécie de redução em cascata na qualidade do consumo. Mas, como por enquanto tudo indica que o fluxo de consumo permanecerá fluindo, também é esperado que pelo menos um bom pedaço de cada degrau seja preservado. Posicionar-se para aproveitar o máximo possível da parte do consumo que será mantida em cada setor e para acompanhar as alterações de hábitos será fundamental para as empresas. Terão mais sucesso as que conhecem bem seus clientes e forem mais ágeis nas adaptações necessárias. "Além de considerar dados como emprego, renda e crédito, é preciso lembrar que o consumo nada mais é do que a concretização das necessidades e dos desejos das pessoas", afirma Luiz Lazzarini, diretor do instituto de pesquisas de mercado Nielsen. São essas necessidades e desejos que se transformam em pacotes de açúcar, pares de sapatos, carros ou frascos de perfume levados do varejo para casa.

A crise deve produzir reações curiosas. Uma das tendências esperadas é que as pessoas, especialmente das classes B e C, passem mais tempo em casa e transfiram um pouco mais de recursos para o lazer doméstico. As famílias dessa faixa poderão optar por ir menos vezes à praia ou cancelar uma viagem de férias, mas podem compensar parte dos desejos frustrados fazendo a troca do aparelho de TV ou a assinatura de um pacote de televisão paga com internet rápida. Algumas empresas já estão se movimentando para tentar aproveitar essas mudanças do mercado. A espanhola Telefónica anunciou que investirá 2,4 bilhões de reais no país neste ano, um montante 20% superior ao de 2008. A maior parte dos investimentos irá para a construção de infraestrutura de serviços de internet por banda larga e televisão por assinatura. "Nossos investimentos são de longo prazo de maturação e o Brasil é um dos mercados em melhor situação entre os que atuamos, especialmente se compararmos com a Europa e a América do Norte", afirma Antonio Valente, presidente da Telefónica no país. A empresa está testando um grupo de produtos batizado de lar digital. Um deles funcionará como um iPhone fixo, permitindo a navegação na internet com o telefone fixo. Outro novo serviço integrará aparelhos da casa, que poderão ser acessados pelo telefone e pela internet.

Quem pretende decifrar o comportamento do consumidor deve olhar com especial atenção para o panorama do crédito, um elemento vital para a reativação econômica. Logo após a eclosão da crise, o que se viu foi uma combinação perversa de dois fatores. De um lado, empresas e bancos se tornaram muito mais relutantes em conceder empréstimos, com medo de calotes. De outro, o próprio consumidor passou a fugir do crediário. Isso tudo faz com que os setores dependentes de financiamento sofram mais do que outros. A situação da Honda, por exemplo, deixa claro o impacto da redução do crédito. "Imediatamente após o início da crise, tivemos perda de 50% nos financiamentos em razão do excessivo rigor nas análises de créditos", afirma Roberto Akiayama, diretor comercial da Moto Honda da Amazônia. O resultado foi uma drástica redução no volume de vendas, de 120 000 para 90 000 motos por mês. A Honda registrou queda de 40% nas vendas nas regiões Sul e Sudeste e redução de 12% nas demais, desde novembro.

Apesar de tais resultados, a expectativa para o crédito é ainda positiva: o fluxo deve aumentar nos próximos meses e, segundo estimativas, o volume disponível para o consumo em 2009 deve ser superior ao de 2008. "A queda da taxa Selic e a ajuda do Banco Central para o crédito concedido pelos bancos de médio porte devem estimular a injeção de mais recursos nas áreas de consumo", afirma Robson Gonçalves, consultor da FGV Projetos. A volta a essa normalidade é ansiosamente aguardada pelo setor de eletroeletrônicos e informática. Nos dois primeiros meses do ano, as vendas de aparelhos de linha branca, que incluem fogão, refrigerador, lavadora de roupas e micro-ondas, caíram 34% em relação ao primeiro bimestre de 2008. De acordo com Gisela Pougy, diretora da GfK, empresa que audita vendas no varejo de eletroeletrônicos, desde o início do ano já houve certa flexibilização do crédito, com impacto em alguns segmentos. A GfK registrou crescimento de 123% nas vendas de televisores de tela fina e de 30% nas de aparelhos de GPS para carros no primeiro bimestre - números que claramente destoam de um cenário de recessão e que mostram que há espaço para crescimento das vendas. "O bolso do consumidor é um só", afirma Gisela. "Ele valoriza as novas tecnologias e tende a optar pelo que lhe parece mais útil."

Para as empresas, uma variável importante é a área geográfica de atuação. De acordo com um estudo da Target Marketing, empresa que projeta o potencial de consumo brasileiro, a Região Sul deve ser a que mais perderá potencial de consumo ao longo do ano, algo em torno de 2,7% em relação ao registrado no ano passado. "Os estados do Sul são grandes fornecedores de produtos para exportação, tanto do agronegócio quanto de manufaturados, justamente a frente que mais desempregou devido à queda da demanda internacional", afirma Marcos Pazzini, diretor da Target. O Sudeste, que responde por mais da metade de todo o consumo do país, deve registrar uma queda de quase 1% no potencial de compra. Apesar de concentrar o maior polo industrial e exportador do país, o Sudeste sofre menos pela diversificação de sua economia. Boa parte da população trabalha no comércio ou em serviços, que devem sofrer menos baixas de emprego.

Por outro lado, a Região Norte deve ganhar 6% em potencial de consumo, e a Região Nordeste, 3%. A explicação para o desempenho positivo está no fato de que parte significativa da população dessas regiões tem renda atrelada ao salário mínimo, que vem tendo reajustes acima da inflação, além de concentrar um contingente importante de beneficiários da Previdência Social e do Bolsa Família, que garantem renda mesmo em períodos de crise. O Nordeste, que representa quase um quinto do consumo do país, mais que o triplo do consumo dos estados do Norte, tornou-se um polo de atração de negócios. No ano passado, o conjunto de estados nordestinos ultrapassou o Sul no ranking regional de consumo e agora só fica abaixo do Sudeste. "Já inauguramos uma loja neste ano em Recife e manteremos a expansão da rede de lojas próprias na região", afirma Mark Pitt, presidente da fabricante de tintas Sherwin Williams no Brasil. Nos últimos cinco anos, a subsidiária da companhia americana abriu 23 lojas no Nordeste, única região do país em que opera também no varejo. Segundo Pitt, alguns investimentos em infraestrutura, combinados com a chegada de novas empresas à região e ao próprio Bolsa Família, proporcionaram um crescimento mais robusto da economia nordestina. "Provavelmente meu cliente não ganha o Bolsa Família, mas faz parte da cadeia econômica que é afetada pela injeção desses recursos."

O Bolsa Família, aliás, ajuda a explicar por que o consumidor de classes mais baixas de renda deve sofrer proporcionalmente menos. Já nas classes mais altas, um conjunto ruim de fatores faz com que o impacto da crise seja maior. A maior parte do desemprego até aqui ocorreu na indústria - onde o salário médio é mais alto. É por isso que um dos segmentos mais afetados é a classe chamada de B2, onde, segundo a classificação da consultoria Target, a renda média é de 2 300 reais. Também devem se retrair os consumidores mais ricos, membros da classe batizada de A1 - neste caso, em larga medida, pelo impacto das perdas no mercado financeiro. Entre as ganhadoras, a classe E sobressai por crescer mais proporcionalmente - 33% - em potencial de consumo. Porém, sua relevância no total consumido no país é ínfima, 0,4%.

O fato é que, numa análise mais ampla, graças ao mercado interno a economia brasileira ainda pode se sair relativamente bem. "A verdade é que, felizmente, a crise não se espalhou por todos os setores", afirma Antonio Cássio dos Santos, presidente da seguradora Mapfre. Não se trata de ignorar a gravidade do problema, mas de colocá-lo em sua real dimensão. Uma crise no consumo só ocorrerá se surgirem surpresas gravíssimas e houver desemprego em massa, cenário que hoje parece remoto. O fator psicológico tem um papel relevante e difícil de prever. "Nos Estados Unidos, uma crise de fundamentos econômicos gerou a crise de confiança", diz Santos. "Espero que, aqui, a crise de confiança não provoque uma crise de fundamentos." Apesar de tudo o que se fala sobre a crise, o consumidor ainda mantém o desejo - e tem a necessidade - de consumir. Em tempo de ventos desfavoráveis e de quedas assustadoras nas vendas mundo afora, essa disposição do brasileiro tem tudo para fazer a diferença.

Fonte: Portal EXAME

14 abril 2009

ECONOMIA - Mercado reduz novamente a previsão do PIB.

Fonte: Fabio Graner, da Agência Estado

Pesquisa do Banco Central, que ouviu cerca de 80 analistas, aponta para uma queda de 0,30% do Produto Interno Bruto brasileiro em 2009


Pela sexta vez consecutiva, o mercado financeiro promoveu mais uma redução na estimativa de desempenho da economia brasileira em 2009. Segundo a Pesquisa Focus, divulgada na manhã desta segunda-feira pelo Banco Central, a mediana das previsões de aproximadamente 80 analistas prevê retração de 0,30% do Produto Interno Bruto (PIB) este ano - ante uma expectativa de queda de 0,19% da pesquisa anterior. Há um mês, o mercado estimava alta de 0,59%. Para 2010, os analistas seguem trabalhando com crescimento de 3,5% para o PIB.

Em relação à produção industrial, o mercado também ficou mais pessimista, prevendo agora queda de 3,56%. Na semana passada, a contração estimada era de 3,06%. Ainda que os números negativos tenham ganhado destaque, para 2010 os analistas continuam esperando alta de 4% na produção industrial.

13 abril 2009

EDUCAÇÃO - Nós nunca estudamos tanto.

Fonte: Portal EXAME

O ingresso de uma nova geração de consumidores quintuplicou o bilionário mercado brasileiro de ensino superior - que hoje movimenta 25 bilhões de reais por ano - e está mudando o perfil das instituições do país


No dia 9 de março, os executivos do grupo americano de ensino DeVry, com sede em Chicago e faturamento de 1 bilhão de dólares em 2008, encerraram uma busca que levou dois anos. Após pesquisar uma centena de países, eles encontraram no Nordeste brasileiro o destino para dar seu primeiro passo fora da América do Norte. Com investimento de 55 milhões de reais, o grupo arrematou 70% da Faculdades Nordeste (Fanor), com 10 000 alunos em cinco campi, no Ceará e na Bahia. O movimento do DeVry é a mais recente demonstração do interesse de investidores estrangeiros pelo mercado brasileiro de educação. O pioneiro foi o também americano Laureate, em 2005, com a compra do controle da rede de faculdades Anhembi Morumbi, de São Paulo. Um ano mais tarde, a americana Whitney International University adquiriu participação majoritária na Faculdades Jorge Amado, de Salvador. Representantes do Apollo, o maior grupo de educação do mundo, com receita de 3 bilhões de dólares em 2008, também vêm visitando o país em busca de oportunidades. "O mercado brasileiro ainda possui um grande número de estudantes potenciais para graduação, e a consolidação deverá continuar mesmo em meio à crise", diz Carlos Alberto Guerra Filgueiras, atual presidente e um dos fundadores da Fanor, criada em 2001 por um grupo de investidores interessados nas altas taxas de crescimento do setor.

Assim como Filgueiras, os estrangeiros foram atraídos por uma massa crescente de novos consumidores de educação no Brasil. Na última década, o número de alunos de graduação em escolas privadas no país passou de 1 milhão para cerca de 4 milhões (veja quadro na pág. 45). Na última década, o mercado quintuplicou seu valor e deverá movimentar neste ano 24 bilhões de reais. Boa parte desse crescimento pode ser creditada à ascensão da classe C - parcela da população com renda familiar mensal entre 1 000 e 4 600 reais, segundo o Ipea, e que até pouco tempo atrás era praticamente excluída do ensino superior. "Hoje os alunos da classe C representam a maior parte dos novos estudantes dos cursos de ensino superior no país", afirma Renato Souza Neto, diretor da PRS, empresa de consultoria educacional que mantém com o pai, o ex-ministro da Educação Paulo Renato Souza. O ingresso desses consumidores não apenas possibilitou a criação de grandes grupos de educação no país como também tem exigido uma transformação do modelo de negócios das universidades. "Até pouco tempo atrás, esses grupos ofereciam apenas cursos de graduação tradicionais", diz Ryon Braga, diretor da consultoria especializada em educação Hoper. "Agora, eles estão criando modelos de negócios para atender às demandas dos novos alunos." Na prática, isso significa que as instituições precisam sanar três necessidades básicas ao oferecer um curso: que ele ajude o aluno a progredir na carreira, que seja próximo de casa ou do trabalho e que caiba em seu bolso.

Uma das tendências que despontam nesse contexto é a expansão dos cursos tecnológicos, com nível de graduação e duração de dois a três anos. Hoje existem cerca de 400 000 alunos desses cursos no país - menos de 10% do total de graduandos. Ainda se trata de uma participação pequena, sobretudo se comparada à média americana, em que 56% dos alunos de graduação frequentam cursos de curta duração. Mas o percentual brasileiro vem progredindo num ritmo acelerado. A consultoria Hoper projeta que o número total de alunos chegue a 490 000 até o final deste ano. Uma das instituições que investem nesse mercado é a Fanor, que desde 2008 oferece cinco cursos tecnológicos, como construção de edifícios e produção de eventos. "Devemos investir cada vez mais na expansão desse modelo", diz Filgueiras, que já programou a abertura de 30 novos cursos desse tipo nos próximos dois anos.

Alguns grupos fizeram um movimento de adaptação à nova demanda de forma ainda mais radical, como o Anhanguera, um dos maiores do país, com receita de 630 milhões de reais entre janeiro e setembro de 2008. Fundado em 1994, o grupo seguiu até recentemente apenas com cursos de graduação. O movimento mais relevante para mudar seu perfil ocorreu em julho, com a aquisição de 30% da rede de ensino profissionalizante Microlins, com sede em Valinhos, no interior de São Paulo, por 25 milhões de reais. Hoje o grupo possui 220 000 alunos na graduação e mais de 500 000 matriculados na Microlins, que oferece cursos técnicos específicos, como formação para garçons e operadores de telemarketing, com mensalidades de 75 a 120 reais. "Ter clareza sobre o perfil de nosso consumidor ajudou a direcionar a estratégia de investimentos", diz Antonio Carbonari Netto, presidente da Anhanguera, que investiu 300 milhões de reais em aquisições só em 2008.

Para atender aos quesitos de conveniência e preço exigidos pelos novos consumidores, boa parte dos grupos brasileiros planeja sustentar sua expansão por meio da educação a distância. De acordo com projeções da consultoria Hoper, trata-se de um modelo com potencial de crescimento de 230% nos próximos três anos, quando deverá atingir
2 milhões de alunos no Brasil. Além de permitir a expansão rápida para o interior, a educação a distância torna o ensino mais acessível à população de baixa renda. Um curso de graduação a distância custa em média 168 reais por mês, ante 457 reais de um tradicional. A expansão da educação a distância também deve ajudar no crescimento dos cursos de pós-graduação no país. Essa é a aposta, por exemplo, da Anhanguera, que comprou a paulista LFG no ano passado. A escola oferece cursos a distância que vão da preparação para exames da OAB a MBAs.

Segundo especialistas, a expansão da pós-graduação é também uma consequência natural do crescimento do número de formandos. Em alguns grupos, o aumento de matrículas já é maior no caso dos cursos de pós-graduação do que na graduação. É o caso do paranaense Positivo, que faturou cerca de 1,3 bilhão de reais em 2008. Neste ano, o Positivo abriu 36 novos cursos de pós-graduação, dobrando a oferta. "Muitos deles são voltados para mercados que se expandiram recentemente, como no caso da pós-graduação voltada para o mercado de etanol", afirma Oriovisto Guimarães, fundador e presidente do conselho de administração do grupo. Estimativas indicam que o número de alunos de cursos de pós-graduação passe dos atuais 600 000 para 2 milhões em três anos.

Para que boa parte dessas projeções de crescimento se concretize, será fundamental que o crédito educacional decole no país. Por enquanto, apenas 3,7% dos alunos matriculados usam esse sistema para financiar seus estudos, mas especialistas estimam que esse índice pode chegar a 30% até 2012 - nos Estados Unidos, mais de 70% dos graduandos financiam seus cursos. Recentemente, a Ideal Invest, primeira empresa criada no mercado brasileiro para crédito educativo, traçou um perfil dos estudantes que já financiam seus estudos. Em geral, eles ganham menos de dois salários mínimos por mês, a maioria - 63% - trabalha e 78% compõem a primeira geração de sua família num curso de graduação. Diante dos números do mercado potencial, aos poucos as próprias universidades começam a facilitar o crédito. Um exemplo é o grupo Kroton, que tem entre os fundadores o ex-ministro Walfrido dos Mares Guia. O Kroton já oferece hoje o Pravaler, da Ideal Invest, e está elaborando outro produto com o Unibanco. Atualmente, apenas 15% dos alunos do Kroton possuem financiamento. "Numa de nossas unidades, 65% dos alunos que ingressam nos cursos indicam que querem financiamento estudantil. Fizemos uma análise com uma instituição financeira e quase 70% desses alunos interessados já têm o crédito pré-aprovado", diz Walter Luiz Diniz Braga, presidente do grupo Kroton.

A consolidação do setor, tanto com a chegada de grupos estrangeiros como com o avanço dos grupos nacionais, deverá continuar aquecida neste ano. As possibilidades para fusões e aquisições são enormes - hoje, cerca de 70% do mercado de graduação está nas mãos de pequenas instituições de ensino. Segundo Luciano Campos, analista da Itaú Corretora especializado em educação, muitas escolas que abriram as portas na onda da expansão do setor - mais de 1 300 novas instituições surgiram entre 1997 e 2007, numa média de duas escolas por semana - deverão ser engolidas por outras mais fortes. A expectativa é que essa expansão melhore a posição do Brasil no ranking mundial de presença do ensino superior, elaborado pela Unesco. Hoje o percentual de brasileiros em cursos de graduação é um dos menores do mundo - apenas 20% da população que poderia estar na universidade de fato frequenta os bancos escolares. Países vizinhos, como Argentina e Chile, estão muito à frente, com 61% e 43%, respectivamente. "Temos um longo caminho a percorrer, mas estamos na direção certa", diz Braga, da consultoria Hoper.


06 abril 2009

CONSUMO - Crise não afeta venda de carros de luxo no Brasil.

Fonte: Portal Amanhã

Vendas da Audi, BMW, Mercedes-Benz e Volvo cresceram 31% no primeiro bimestre do ano

O mercado brasileiro de carros de luxo, com preços acima de R$ 120 mil, não está sentindo a crise. No primeiro bimestre deste ano, as vendas das quatro marcas mais representativas do segmento - Audi, BMW, Mercedes-Benz e Volvo - cresceram 31% ante os dois primeiros meses de 2008, de 1.115 para 1.461 unidades. Em igual período, os negócios com automóveis em geral caíram 4,5%, para 313,5 mil unidades. A retração foi liderada pelo segmento de populares, que caiu 6,3%, segundo dados do Departamento Nacional de Trânsito (Denatran). 

Há modelos com fila de espera, como o Audi R8, que custa R$ 555 mil. Pelo menos 10 unidades encomendados nos últimos meses ainda não foram entregues. Desde junho de 2008, quando o modelo fabricado na Alemanha foi lançado no País, foram entregues 20 unidades. A previsão das empresas que atuam no segmento de luxo é de vender 10 mil carros este ano, repetindo o volume de 2008. Já o mercado total de veículos pode cair até 15%, segundo preveem algumas fábricas.

"O Brasil é um dos poucos mercados mundiais que neste momento aparece com resultados azuis no relatório da companhia", diz Paulo Sérgio Kakinoff, novo presidente da Audi do Brasil. Para ele, "os novos milionários" e a melhora da renda na economia como um todo têm sustentado o mercado de luxo, não só no segmento de automóveis, mas de vestuário e acessórios, entre outros. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo

MARKETING - Você sabe tudo sobre boca-a-boca?

Fonte: Michelle Veronese - www.administradores.com.br

Foi um trabalho de Hércules. 664 pesquisas, a maioria realizada nos EUA, passaram pela escrivaninha de Celso Augusto de Matos durante 1 ano e meio. O pesquisador, que atualmente é professor de marketing na UNISINOS, em São Leopoldo, e no Unilasalle, em Canoas, encarou esse minucioso trabalho para entender o que está por trás do marketing boca-a-boca, a mais antiga e poderosa forma de propaganda. 

“Há inúmeros trabalhos sobre esse tema, alguns divergentes, outros não. O que fiz foi uma meta-análise de dezenas deles, a fim de produzir uma síntese dos estudos anteriores e identificar quais aspectos podem desencadear esse tipo de marketing”, conta o pesquisador.

O resultado saiu em forma de tese, intitulada Comunicações boca-a-boca em marketing: uma meta-análise dos antecedentes e dos moderadores e defendida na Universidade Federal do Rio Grande do Sul em março deste ano. Esses resultados foram também publicados em uma importante revista acadêmica dos EUA, o Journal of the Academy of Marketing Science. Na entrevista a seguir, Celso explica o que ele descobriu sobre os tipos e causas da propaganda boca-a-boca.


O que você descobriu de novidade nos estudos sobre o marketing boca-a-boca?
Celso Augusto - De 2008 para cá, os pesquisadores estão procurando, cada vez mais, avaliar o que ocorre antes do boca-a-boca, ou seja, o que leva um consumidor a fazer esse tipo de marketing. Antes, sabia-se o óbvio: um cliente satisfeito tende a falar bem de um produto ou serviço e os insatisfeitos fazem o contrário. Agora, porém, os estudos tentam descobrir mais sobre esse comportamento de recomendação do consumidor.

E o que leva as pessoas a fazerem esse tipo de propaganda?
Celso Augusto - Eu estudei 6 fatores principais, que chamamos de antecedentes: satisfação, lealdade, qualidade de serviços, comprometimento, confiança e valor percebido. 

Na sua pesquisa, você constatou qual fator tem maior peso que os demais, não é?
Celso Augusto - Sim e essa foi uma das principais contribuições da tese. Até então, não se sabia qual dos 6 antecedentes tinha maior influência no boca-a-boca. Descobri que o comprometimento tem um peso maior, sendo inclusive mais forte que a própria satisfação. O consumidor que faz boca-a-boca positivo é alguém que está comprometido com o produto ou serviço.

E o que significa estar comprometimento com um produto ou serviço?
Celso Augusto - O consumidor, quando se identifica com um produto/serviço, cria uma ligação afetiva com ele e sente que partilha dos mesmos valores que a empresa. Podem ser valores como transparência, solidez ou eficiência. Desde que exista uma sintonia entre aquilo que o consumidor busca e o que a empresa oferece, o comprometimento poderá ocorrer.....

… e, consequentemente, surge o boca-a-boca?
Celso Augusto - Exato. Em consequência dessa sintonia de valores, desse comprometimento, o consumidor tende a fazer um boca-a-boca favorável, querendo que outras pessoas tenham a mesma experiência positiva que ele. É claro que tudo isso ocorre de modo natural e espontâneo, por isso, chamamos esse processo de bom comprometimento, pois é um comprometimento afetivo.

Quer dizer que existe o mau comprometimento?
Celso Augusto - Sim. Algumas empresas tentam forçar esse tipo de relação, obrigando, por exemplo, o consumidor a se manter comprometido com elas por determinado período de tempo. Esse seria o mau comprometimento, chamado de comprometimento calculativo. Um exemplo clássico é o dos planos para telefones celulares, com um ano de fidelidade forçada. 

É um risco grande, não é mesmo?
Celso Augusto - Claro. Forçar um comprometimento pode até causar o efeito inverso se a relação com o produto ou serviço for negativa. Aí, ocorre o boca-a-boca negativo, que é um problemão para as empresas e que também foi analisado durante a pesquisa.

O que você descobriu sobre o boca-a-boca negativo?
Celso Augusto - A pesquisa mostrou que seu principal antecedente é a lealdade – ou melhor, a quebra da lealdade. Isso ocorre quando o consumidor, que até então se mantinha comprometido com um produto ou serviço, percebe que não foi respeitado pela empresa, seja porque essa não atendeu às suas expectativas ou por outro motivo. A partir daí, ele tem uma reação passional, fica revoltado, com raiva... E imediatamente passa a compartilhar sua insatisfação com outras pessoas, para que elas não passem pela mesma experiência negativa que ele.

E o efeito é danoso?
Celso Augusto - Sim. O poder do boca-a-boca, tanto positivo quanto negativo, é impressionante. Isso ocorre porque o boca-a-boca é uma propaganda de alta credibilidade, já que é feita por alguém próximo, como um amigo ou parente. Normalmente, quem o faz não tem interesse algum, exceto o de compartilhar a sua opinião.

Que conselho você dá aos profissionais de marketing que querem aprender a lidar com o boca-a-boca?
Celso Augusto - Primeiro, não adianta forçar esse tipo de propaganda. Ela simplesmente acontece, de modo espontâneo e natural. E as empresas também não têm como controlar esse processo. Mas há uma saída: basta as empresas se esforçarem para terem consumidores satisfeitos e comprometidos. Isso, sim, pode disparar um boca-a-boca positivo. 


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