28 julho 2009

SUSTENTABILIDADE - O clima vai pesar

Fonte Portal AMANHÃ

O aquecimento global leva grandes empresas a repensar seu modelo de negócios para combater o efeito estufa – ainda alvo de polêmica entre os cientistas


Em novembro do ano passado, o Vale do Itajaí foi arrasado por uma das enchentes mais violentas da história de Santa Catarina. Em apenas 30 dias, a região registrou um volume de precipitações equivalente ao de um ano inteiro. Cerca de 1,5 milhão de pessoas foram atingidas pelas cheias, 78 mil ficaram desabrigadas e pelo menos 16 morreram. Só no Porto de Itajaí, o maior de Santa Catarina, a força das águas destruiu metade das docas e deixou prejuízos estimados em R$ 350 milhões - sem contar os custos de paralisação e atrasos que os exportadores tiveram de amargar. O curioso é que, na época, Santa Catarina havia acabado de superar um problema exatamente oposto: a falta de chuvas. "Foi algo muito diferente de tudo que a gente já havia visto", resume Robert Grantham, diretor comercial do Porto de Itajaí. "Mesmo assim, ainda não estou convencido de que isso foi provocado por uma mudança no clima", enfatiza.

É compreensível a cautela. Os próprios meteorologistas ainda não afirmam com segurança se esses eventos são fenômenos extraordinários da natureza ou sintomas diretos do aquecimento global. A única certeza é que o clima está realmente mudando. Não é à toa que grandes companhias como Petrobras, Vale, Bradesco e outras vêm trabalhando para mapear os prováveis efeitos do aquecimento global. "São companhias que têm uma visão de futuro muito apurada. Elas não estão dispostas a esperar o pior acontecer. Fazem de tudo para se antecipar a eventuais ameaças ou oportunidades decorrentes das mudanças no clima", conta Giovanni Barontini, coordenador da consultoria Fábrica Ethica e representante, no Brasil, do Carbon Disclosure Project (CDP) - entidade internacional cuja missão é convencer as empresas a incorporar o conceito de "governança climática".

Em outras palavras, o aquecimento global está se tornando pauta obrigatória na agenda dos negócios. Hoje, ninguém mais ousa falar de crescimento sem levar em conta as prováveis transformações do clima. Não por acaso, a ONU está preparando uma convenção que deverá redefinir a maneira como os governos e as empresas buscam o desenvolvimento econômico. Em dezembro deste ano, os líderes dos 192 países signatários da Convenção-Quadro sobre Mudanças do Clima se reunirão em Copenhague, na Dinamarca, com a missão de firmar um novo acordo para reduzir as emissões dos gases causadores do efeito estufa. A expectativa é que desse encontro saia uma espécie de "parte 2" do Protocolo de Kyoto - desta vez, com metas mais ambiciosas e um plano de execução mais realista. Se tudo der certo, os Estados Unidos também assumirão compromissos formais de "descarbonização". Aí não haverá saída. Praticamente todas as grandes economias do planeta estarão em busca de soluções para o aquecimento global e, inevitavelmente, forçarão o resto do mundo a trilhar o mesmo caminho. "Pela primeira vez, teremos um acordo de verdade para enfrentar esse problema", resume Rachel Biderman Furiela, coordenadora do Centro de Estudos em Sus¬tentabilidade da FGV (GVCes).

Há razões de sobra para tanta mobilização. A primeira e mais importante delas é que as mudanças esperadas no clima não são nada sutis. Todas as projeções - tanto as otimistas quanto as catastróficas - revelam que as consequências do aumento das temperaturas serão duras para a sociedade e para a economia, especialmente nas regiões pobres do planeta. Nos cenários mais moderados, haverá uma multiplicação dos chamados "eventos extremos climáticos" - vendavais, tufões, secas, enxurradas etc. "Hoje, por exemplo, os fenômenos relacionados ao El Niño estão se repetindo em frequência e intensidade cada vez maiores", relata Paulo Moutinho, coordenador-geral do Observatório do Clima, uma rede de articulação entre pesquisadores e ambientalistas que tenta influenciar o governo na adoção de políticas pró-clima.

Logo, não é por idealismo que grandes empresas estão começando a colocar variáveis climáticas nas suas estratégias de negócios. É para evitar prejuízos. As mudanças no clima, quaisquer que sejam, podem destruir mercados e inviabilizar negócios. Especialmente no Brasil, onde a economia - altamente dependente do agronegócio - sempre se mostrou frágil ante as oscilações do clima. Muitos climatologistas acreditam que, com o aumento das temperaturas e mudanças na dinâmica das chuvas, é provável que algumas regiões percam a capacidade de cultivar determinadas variedades de grãos e até de produzir energia. No centro-oeste, por exemplo, a tendência é de queda permanente nos índices de chuva, o que pode comprometer a viabilidade das lavouras de soja. Já o sudeste tende a sofrer ondas de calor cada vez mais violentas, o que forçará a migração do café e da cana-de-açúcar para o sul. "Não há dúvidas de que a nossa capacidade de produzir alimentos será afetada de uma forma ou de outra", aponta o climatologista Carlos Nobre, coordenador-geral do Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC) do Inpe - órgão que é ligado ao Ministério da Ciência a Tecnologia.

Nos últimos 100 anos, a temperatura média do planeta subiu 0,74 grau centígrado. A maior parte desse aquecimento, porém, aconteceu somente nas décadas mais recentes. Dos 12 anos mais quentes registrados pela ONU, desde 1850, nada menos do que 11 ocorreram depois de 1995. Ou seja: o fenômeno está diretamente relacionado à atividade industrial e à queima de combustíveis fósseis. A consequência dessa súbita febre global é conhecida: aos poucos, o mar está avançando sobre a terra. De acordo com o último relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês), o nível médio dos oceanos vinha crescendo 1,8 milímetro por ano desde 1961. A partir de 1993, porém, essa taxa passou para 3,1 milímetros por ano. "É fato que o mar está subindo. Resta saber quanto subirá nos próximos anos. Pode ser uma dezena de centímetros e pode ser mais de um metro. Tudo depende de como o mundo enfrentará o problema do aquecimento", explica Carlos Nobre.



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